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sexta-feira, 15 de maio de 2015

15/05

2015

Histórias de repórter (IV)

Já governador pela terceira vez, eleito no pleito de 1994, Miguel Arraes (PSB) foi participar de uma reunião de governadores em Belo Horizonte. Escalado para cobrir o encontro, decolei de Brasília e chegando na capital mineira soube que Arraes voltaria de jatinho no mesmo dia fazendo uma escala na capital federal para cumprir uma agenda de audiências.
Minha relação com Arraes era de altos e baixos. Quando o vi, pedi de imediato a carona. Bem-humorado, ele respondeu: “Vou pensar no seu caso. Se você se comportar direito, eu levo”. E deu uma gargalhada gostosa, depois de uma baforada no seu cachimbo, que não costumava largar.
Na coletiva, o ajudante de ordens Luis Pinto, figura extremamente educada e agradável, confirmou a carona. Fiquei extremamente feliz e já pensando em arrancar uma entrevista exclusiva nos 50 minutos de voo de BH até Brasília. Na chegada ao hangar, Arraes começou a reclamar da falta de objetividade dos governadores na reunião.
Quando o jatinho decolou, ele, como de hábito, começou a tomar um uisquezinho para relaxar e aí danou-se a contar estórias. Eu doido para fazer uma entrevista, não me atrevi a atrapalhar a conversa, que tinha apenas como testemunha o ajudante de ordens, para não frustrá-lo, porque senti que estava adorando.
E quanto mais molhava o bico, mais falação contra um personagem: Jarbas Vasconcelos, velho aliado, que havia debandado para o caminho da perdição, como dizia, ao buscar adversários históricos da direita para se eleger governador do Estado. Mas o avião era muito barulhento e quanto mais Arraes bebia mais falava para dentro, com uma dicção péssima, jogando também fumaça em minha cara.
Ele ria e eu, mesmo sem entender absolutamente nada, ria também, para fazer de conta. Na descida em Brasília, ele me advertiu: “Magno, essa conversa aqui foi toda em off. Cuidado, viu! Ai, vendo que ele estava extremamente bem-humorado, fui bem sincero:
“Mas, doutor Arraes, não se publica nada que não se entende”!
Ele deu uma sonora gargalhada como se tivesse alcançado o seu objetivo.
Arraes era assim: só falava português claro quando tinha algum propósito a atingir.

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