15/05
2015
2015
Histórias de repórter (IV)
Minha relação com Arraes era de altos e baixos. Quando o vi, pedi de imediato a carona. Bem-humorado, ele respondeu: “Vou pensar no seu caso. Se você se comportar direito, eu levo”. E deu uma gargalhada gostosa, depois de uma baforada no seu cachimbo, que não costumava largar.
Na coletiva, o ajudante de ordens Luis Pinto, figura extremamente educada e agradável, confirmou a carona. Fiquei extremamente feliz e já pensando em arrancar uma entrevista exclusiva nos 50 minutos de voo de BH até Brasília. Na chegada ao hangar, Arraes começou a reclamar da falta de objetividade dos governadores na reunião.
Quando o jatinho decolou, ele, como de hábito, começou a tomar um uisquezinho para relaxar e aí danou-se a contar estórias. Eu doido para fazer uma entrevista, não me atrevi a atrapalhar a conversa, que tinha apenas como testemunha o ajudante de ordens, para não frustrá-lo, porque senti que estava adorando.
E quanto mais molhava o bico, mais falação contra um personagem: Jarbas Vasconcelos, velho aliado, que havia debandado para o caminho da perdição, como dizia, ao buscar adversários históricos da direita para se eleger governador do Estado. Mas o avião era muito barulhento e quanto mais Arraes bebia mais falava para dentro, com uma dicção péssima, jogando também fumaça em minha cara.
Ele ria e eu, mesmo sem entender absolutamente nada, ria também, para fazer de conta. Na descida em Brasília, ele me advertiu: “Magno, essa conversa aqui foi toda em off. Cuidado, viu! Ai, vendo que ele estava extremamente bem-humorado, fui bem sincero:
“Mas, doutor Arraes, não se publica nada que não se entende”!
Ele deu uma sonora gargalhada como se tivesse alcançado o seu objetivo.
Arraes era assim: só falava português claro quando tinha algum propósito a atingir.

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